luciana miyuki

25 de junho a 16 de julho de 2023
Luciana Miyuki é artista visual formada pelo IA-Unicamp. Mestre em Psicologia pela PUC-Campinas. Desde 2008, com as instalações “Desvio de Percurso”, investiga possibilidades de interferir no espaço expositivo a partir de suas vivências cotidianas. Vive e trabalha em São Paulo, SP. Principais exposições: Chamado para o Vazio (2022), Galeria de Artes da UNICAMP; Reply All (2017), Despina – RJ; 2º Arte Londrina (2014), Casa de Cultura DAP/UEL – Londrina; 42º Salão de Arte Contemporânea (2010), Pinacoteca de Piracicaba; Gramatura 32 (2010), MAC-Campinas.
June 25 to July 16, 2023
Luciana Miyuki is a visual artist. She graduated from the Art Institute of the University of Campinas (IA-UNICAMP), and she holds a master’s degree in Psychology from the Pontifical Catholic University of Campinas (PUC-Campinas). Since 2008, with the installations “Desvio de Percurso,” she has investigated possibilities of interfering in exhibition space based on her quotidian experiences. Her main exhibitions include: Chamado para o Vazio (2022), UNICAMP Art Gallery; Reply All (2017), Despina, Rio de Janeiro; 2nd Arte Londrina (2014), Casa de Cultura, Division of Plastic Arts, State University of Londrina (DAP/UEL), Londrina, Paraná; 42nd Contemporary Art Salon (2010), Pinacoteca de Piracicaba; Gramatura 32 (2010), Campinas Museum of Contemporary Art (MAC-Campinas).
“Igatu flutua” foi o que eu ouvi de um morador de Igatu. Ele era a terceira geração de uma família que se estabeleceu na Chapada Diamantina por conta do garimpo. Diferente de outros jovens da sua idade, ele permanecia na vila e contava, com certa revolta e melancolia, que o avô apesar de ter revirado cada pedaço de terra que podíamos ver, não enriqueceu. Tinha sim, uma casinha modesta, conseguiu criar filhos e netos, e agora contava com o serviço público para lidar com uma doença grave. Não foi por ganância nem por má administração dos diamantes, uma boa parte do que era encontrado ficava com uma família que nunca precisou encostar numa bateia, que nunca havia se curvado ao peso ou a autoridade e que mesmo assim aumentavam seus ganhos ano após ano, não importasse a atividade econômica: escravidão, garimpo ou turismo.
Igatu parece se equilibrar na ponta de uma rocha. O cascalho que antes sustentava a vila foi revirado, removido, deslocado por inúmeras mãos. E hoje, seus descendentes vivem o equilíbrio instável, costurando outros caminhos em relações, por vezes desiguais, que vão oscilando entre delicado, frágil e precário.
Faz dois anos que eu carregava essa frase “Igatu flutua” além de tantas outras coisas que me atravessaram durante a residência artística no Mirante Xique-Xique em 2023. A vila também tinha revirado meus planos. Não era mais possível achar que eu chegaria de outro contexto e conseguiria seguir um cronograma pré-estabelecido. Igatu exige respeito e qualquer coisa que eu imaginava fazer não dava conta da dimensão dessas vivências. As caminhadas eram longas e a comunidade, bastante generosa, estabelecia relações dinâmicas e complexas assim como a paisagem, que se impunha por sua grandeza mas que também estava sujeita a mudanças repentinas ao longo do dia.   
Existe uma beleza nessa linha tênue que sustenta essa cidade feita de pedra bruta. Uma linha que pode ser tecida nas histórias, no bilro, no crochê ou mesmo no arame de latão (como é o caso do trabalho que desenvolvi na residência artística) e vai ganhando estrutura e dimensão. É o trabalho do dia-a-dia, aos poucos, que vai sustentando a pedra que responde ao mais delicado sopro.